
Passei os últimos quarenta anos peregrinando, aprendendo sem opções, as duras lições do poder misterioso desta santa terra. Cheguei pela primeira vez a um sábio quando tinha 16 anos, e desde ali, a paixão por aprender o mistério da Vida não me abandonou, e é isso o que transmite a Mística Andina, uma paixão por aprender em liberdade, e esta paixão, se encontra detrás de todas nossas ilusões e condicionamentos infantis.
Tudo o que aprendi até agora, foi com esforço e devoção, aprendi desde tenra idade que a vida tem uma cola maravilhosa que os homens chamam amor, e que nos Andes chama-se com propriedade ternura, e sabem adoro esta palavrinha, ternura... a ternura deste Ser que nos hospeda, que nos cura, que nos nutre e que por misteriosos e não racionais atos nos levam desde a obscuridade e rigidez da mente à brandura humilde e inocente do coração de um filhinho...
A Mística Andina é um movimento que tem como avós os camponeses de Ollantaytambo, os filósofos analfabetos dos Andes americanos, que souberam enxergar com clareza este apavorante mistério que é Pachamama... uma mãe que nutre e cuida, e se fazemos um esforço em sua direção, ela te toca o coração com dedos de silêncio e gozo e deixa de ser mãe e se converte em amante. Compreenderam sobretudo que o universo vivo é feminino, que esta vida é um infinito útero vazio e criativo, onde o poder da vida anda solto, tocando como uma borboleta cósmica as consciências, com a beleza dos entardeceres e de reflexos de luas nas lagoas, puras e cristalinas... assim a borboleta da vida foi descoberta a força de atenção e devoção.
A Mística Andina ensina como fazer para que a borboleta do poder de Pachamama nos toque e ao fazê-lo nos transforme também em borboletas cósmicas. Sinto que este movimento é de origem camponesa, mas com certeza os velhos mestres que com tanta paciência educaram a este menino que hoje já é um velho, sabiam que estava destinado a florescer em palavras da língua portuguesa e na Nação Brasileira.
Há sete anos que ando peregrinando por estes lares, e aprendendo desta parte da Nação Pachamama... sinto o poder abrindo portas, sinto o vento do poder levando-me por caminhos e sendas, que a mente não compreende, mas admira pela dedicação dos antigos mestres, os taytas andinos, que desde o infinito guiam a expansão desta semente. Sete anos não é nada, é só um momento na eternidade, mas para o movimento da Mística Andina, têm sido anos de preparar a terra, disseminar livremente a semente e esperar sem ambição que saia o doce broto para que no Brasil também floresçam muitos homens dados ao poder terno de Pachamama.
Vivemos tempos violentos, aonde os homens de preto, se revoltaram contra as árvores, contra os animais, contra o ar, contra a água, como se fosse uma guerra à Pachamama, e nós não podemos ficar olhando sem tomar partido, ou só discutindo em um café, temos assim, assumido nossos postos de combate, não sei se ganharemos mas com certeza seremos dignos descendentes de Atahualpa, que deu sua vida, guerreando com o conquistador e assassino de sonhos... assim hoje, nós, os homens e mulheres da Mística Andina, temos passado da mística para a militância pacífica a favor de uma cultura de amor a Pachamama, da meditação silenciosa a uma meditação ativa e educadora de consciências para colaborar com anticorpos da selvagem destruição de Pachamama.
Amados companheiros desconhecidos, estou viajando ao Rio de Janeiro com a bolsa de curandeiro cheia de sonhos, lendas, sementes andinas, e nesta velha bolsinha dança a esperança em melhorar a qualidade de vida de todos os reinos, anelando que eles floresçam, e assim vivamos em um mundo mais justo, mais livre e aonde nós, os humanos, as árvores e os sonhos voltemos a conviver pacificamente.
Se me faz incerto que a Mística Andina começou alguma vez, sinto que está começando em cada agora, e ao fazê-lo renova o sonho de amor à existência dos homens e mulheres sensíveis de todos os tempos...
Irradio esperança e ternura em seus corações e vidas.
Gerardo Bastos
Capilla del Monte (Argentina)
Maio de 2008